Por Ana Maura Tavares
Este ensaio objetiva trazer à reflexão sobre a temática da afetividade na infância, com o intento de responder ao seguinte questionamento: é possível desenvolver uma alfabetização socioemocional? Do ponto de vista metodológico, desenvolvemos um diálogo a partir de uma perspectiva bibliográfica ancorados nas contribuições de Goleman (2012); Wallon (1968), entre outros. Trazendo para o centro do debate duas categorias centrais: emoções e alfabetização socioemocional. O diálogo evidencia que a educação socioemocional deve partir da leitura de cada realidade, das condições e necessidades de cada contexto e está estreitamente relacionada com o desenvolvimento da moralidade infantil desde a Educação Infantil.
É possível afirmar que entre os estágios mais primitivos de nosso desenvolvimento, encontramos uma idade de vida intrauterina em que somos um feto, do Latim fetus. Um ser plenamente dependente daquele que o gera. O ato de gestar seria desde o princípio um ato de amor? E o homem desde o princípio da vida seria um ser de afeto? Partindo do entendimento do homem como ser geneticamente social, como já enfatizado por Vygotski (2007), asseveramos que a história de vida de uma criança é envolta por uma história afetiva que antecede seu nascimento e perpassa sua experiência existencial.
Cotidianamente ouvimos falar sobre afetividade em nosso dia a dia e não obstante o uso desse substantivo é vinculado a um determinado sentimento positivo, porém a afetividade são é somente um conjunto de sentimentos ou emoções positivas, ela é uma dimensão constituinte do ser humano e engloba uma gama de fenômenos psíquicos de ordem emocional e sentimental, sejam positivas ou negativas.
Falar sobre afetividade nos remete a compreender a raiz etimológica da palavra, do Latim afficere, afectumque significa agir sobre, ou seja, Ad em, para e, facere, fazer, operar, agir, produzir. Então afetividade estaria vinculado ao verbo afetar, isto é, o sujeito que afeta é aquele que move, mexe, provoca algo em alguém e aquele que é afetado sente-se atingido por determinado estímulo na relação com o meio.
Ainda no século XX, vemos ganhar notoriedade nos estudos sobre inteligência, o conceito de inteligência emocional de Goleman (2012), que enfrentou entre os adeptos do conceito de quociente de inteligência (QI) como única medida aceitável para a ‘medição’ das aptidões humanas, grande resistência, na década de 1990.
O discurso acerca das habilidades socioemocionais tem ganhado notoriedade no país desde a implantação da Base Nacional Comum Curricular – BNCC (2017). No entanto, a filosofia de Baruch Snipoza (também chamado de Espinosa ou Espinoza) (1632 – 1677) no século XVII, já discutia a relação entre razão e emoção. Para ele, o pensamento é inseparável da experiência afetiva, ou seja, a razão não escapa à influência das emoções.
Na teoria dos afetos, elaborada por Spinosa na terceira parte da Ética, o autor enfatiza que o afeto possui ao mesmo tempo uma realidade física e uma realidade psicológica, ou seja, uma dimensão corporal e uma dimensão mental. O afeto engloba ao mesmo tempo o corpo e a ideia, conforme nos revela a definição III da parte III da Ética, a qual define os afetos como aquelas “afecções do corpo pelas quais sua potência de agir é aumentada ou diminuída, estimulada ou refreada, e, ao mesmo tempo, as ideias dessas afecções” (ESPINOSA, 2009, p. 98).
Nessa perspectiva de superação da dicotomia mente/corpo, razão/emoção, encontramos, no século XX, os estudos sobre a psicologia do desenvolvimento humano a partir de Wallon (1968). De origem orgânica, as emoções são, de acordo com Wallon (1968), a exteriorização da afetividade e permitem a sociabilidade das crianças que, paulatinamente, no meio em que são educadas, adquirem a capacidade de tornar a emoção, silenciosa. Então poderíamos dizer que, a dimensão afetiva, embora inata, é aperfeiçoada ao longo da vida, no processo de interação do indivíduo com o meio?
As influências afetivas que circundam a criança desde a mais tenra idade, têm relação com a sua evolução psíquica. A criança, inicialmente, revela suas paixões e ao adquirir a capacidade de distinguir seu ego do outro, adquire a capacidade de autocontrole, de lidar com as emoções, ou seja, “o meio provê a nossa actividade de instrumentos e técnicas” (WALLON, 1968, p. 54). As emoções constituem um “sistema de atitudes que correspondem, cada uma, a uma determinada espécie de situação […]” (WALLON, 1968, p. 148) dando tom ao real e tendo estreita relação com a constituição da personalidade de cada indivíduo.
Na perspectiva walloniana, a emoção e o movimento têm um papel fundamental para o desenvolvimento cognitivo e para o processo de aprendizagem. O desenvolvimento da criança recebe influencias de fatores internos e externos, intrínsecos e extrínsecos e acontece em fases progressivas onde cada uma delas oferece as bases para o aparecimento no novo estágio. “A criança atravessa diferentes estágios que oscilam entre momentos de maior interiorização e outros mais voltados para o exterior, sendo possível demarcar alguns deles ao longo do desenvolvimento infantil” (JUNQUEIRA, 2010, p. 34).
O tripé movimento, afetividade e cognição abordado na perspectiva walloniana é extremamente importante para a desconstrução do olhar adultocêntrico presente nas metodologias de investigação sobre o desenvolvimento infantil e consequentemente converge com os fundamentos de uma Pedagogia da Infância participativa e atenta ao protagonismo da criança no fazer pedagógico. Pensar em uma Pedagogia atenta as necessidades da criança, move o fazer docente a observar a educação emocional. Estamos educando emocionalmente as crianças? Como estamos educando emocionalmente as crianças?
A relação de vínculo, de afetividade, de segurança e de identificação positiva da criança na família e com o(a) professor(a), no ambiente e nas interações estabelecidas dentro da instituição de Educação Infantil são de grande relevância para o desenvolvimento e a aprendizagem das crianças, bem como para a construção de sua personalidade.
Os estudos sobre a evolução do cérebro trouxeram grandes contribuições para a compreensão da relação neuroanatômica e neurofisiológica entre a razão e a emoção, e alcançaram destaque no âmbito educacional, tendo em vista que as escolas são ambientes onde as crianças passam grande parte de suas vidas e é marcado pelas interações sociais.
Na esteira do entendimento que a identificação, a compreensão e a expressão das emoções são apreendidas na relação social, Goleman desenvolveu o conceito de alfabetização emocional, tomando por base, experiências desenvolvidas em Escolas no Estados Unidos da América. Para ele, um projeto de alfabetização emocional deve começar cedo, “cobrir todo o tempo de escolaridade e entremear os trabalhos na escola, em casa e na comunidade” (GOLEMAN, 2012, p. 295). Ou seja, envolve uma rede de apoio em prol da educação emocional.
A alfabetização emocional, portanto, diz respeito ao processo de educação das emoções com vistas ao desenvolvimento de competências sociais e emocionais que contribuam para interação das crianças em diversos ambientes sociais e consigo mesma.
O estímulo ao desenvolvimento de habilidades socioemocionais, encontram-se fundamentado nas contribuições apresentadas pela Ciência Psicológica na interface com outras áreas do conhecimento. Para localizar nossa escolha conceitual, entenderemos competências socioemocionais, neste estudo, como sendo um conjunto de habilidades sociais, emocionais, procedimentais e atitudinais necessárias para ter êxito em diversos ambientes sociais.
No âmbito da Educação Infantil, tendo como eixos norteadores os diversos campos de experiência e as interações e as brincadeiras como eixos norteadores da prática pedagógica, a dimensão socioemocional dever ser trabalhada, levando em conta cada faixa etária, a partir das situações cotidianas onde as crianças são confrontadas com frustrações e regras sociais. Por exemplo: o empréstimo de um brinquedo, a divisão de material em sala, a disponibilidade para ouvir as experiências do amigo ou a identificação de um sentimento que mobiliza o choro de uma criança que foi deixada na escola e quer voltar para sua casa, são situações onde as crianças devem ser conduzidas a educação emocional.
O trabalho de alfabetização socioemocional está estreitamente relacionado com o desenvolvimento da moralidade infantil, portanto, deve fomentar a aprendizagem sobre valores importantes à convivência comunitária, precisa partir da leitura de cada realidade – das condições, das singularidades das crianças e, considerar as necessidades de cada contexto (familiar, comunitários, etc.).
BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2017
GOLEMAN, D. Inteligência Emocional. A teoria revolucionária que define o que é ser inteligente. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
HUTZ. Claúdio S..O desenvolvimento de marcadores para a avaliação da personalidade no modelo dos cinco grandes fatores. Psicol. Reflex. Crit. 11 (2). 1998
JUNQUEIRA, Patrícia. (Org.) Henri Wallon. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010. 134 p. (Coleção Educadores)
SPINOZA, B. Ética. Belo Horizonte: Autêntica Editora, 2009.
WALLON, Henri. A evolução psicológica da criança. São Paulo: Martins Fontes. 1968.
VYGOTSKY, L.S. A formação social da mente. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
Autoria: Ana Maura Tavares
Doutora e Mestre em Educação, Especialista em Psicopedagogia Clínica e Institucional, em Gestão Escolar e em Neuropsicopedagogia e graduada em Pedagogia e em Psicologia. É professora e autora de obras literárias.
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